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Prosaico, proletário, Aposentar
Maria levanta às quatro horas da manhã. Entra no serviço às seis e meia. O café deve ser servido às sete. Em ponto, como as torradas do patrão. Ajeita as panelas, corre atrás de água, dá uma varrida no barraco e acorda a filha. Não pode perder o ônibus.
Anita tem 7 anos e já sabe mais da vida do que a maioria das meninas da idade. Maria não tem tempo a perder com a lengalenga e resmungos da filha. Anita já estava crescidinha. Como ela, também iria aprender. Sobreviver doía mais.
Anita entendeu que brincar de Barbie é só na casa de alvenaria. Ali no barraco de madeira é vida de preto pobre. No frio, no calor, tem que pular cedo da cama que divide com o irmão mais velho. O caçula dorme com a mãe.
Café a cada dia mais ralo no copo de extrato, um naco de pão duro goela abaixo — quando conseguem, guardam um bocado, pensando nos roncos do dia seguinte — algo para não sentir a barriga tremer mais que a britadeira no duro do asfalto.
Para não deixar Anita dormir de novo, só não deixando deitar. Amolecia o coração, mas logo passava. A menina tinha perdido a hora muitas vezes e a vaga na escola estava por um triz.
Fecha a porta do barraco e sai. Nem olha para trás. Doía menos.
Pedro tem cinco e, João, três anos. Maria, devota, tirara o nome dos filhos do livro sagrado, na esperança de que virassem gente. Quem sabe a Virgem, sua xará de nome, os livrasse da sina? À menina dera o nome de Anita.
Morando no morro, Maria já vira de tudo. A comunidade era a primeira escola do que esquecer. Vender-se por um prato de comida, traficante herói; leite benzido com álcool. É pra acalmar, diz a mãe. O menino chora à toa…
Maria pega o ônibus na avenida; isso significa caminhar pela comunidade, em meio ao lixo, ao esgoto — fotografia da senzala atualizada pelos novos tempos. Idêntica segregação, apenas maquilada pela meritocracia. Atualmente, como ontem, a quebrada é compartilhada por pretos, nordestinos, travestis, prostitutas e os demais excluídos da sociedade.
Funga o próprio cheiro. Coisa incrustrada, cheiro de pobre impregnado na roupa e pele. O cheiro que já se tornara seu, como ouvira no cochicho das madamas amigas da patroa enquanto servia o chá da tarde, embora a patroa mandasse tomar banho antes de vestir o uniforme de empregada. Mas esse era o seu cheiro: o cheiro da pobreza.
No ônibus 5.687 conhece quase todo mundo. Mesmo trajeto, ida e volta. Quase duas horas de viagem chacoalhando para ir e para voltar, em pé ou sentada; depende da sorte e do freguês que encontra no caminho. Ida tinha hora certa; a volta, só com a jornada da patroa cumprida.
Vai aposentar aos 75.
Sada Ali,
escritora e psicóloga