Artigos
Petrópolis, a cidade imperial, sob a lama
Caros leitores,
Tenho acompanhado os noticiários das últimas semanas e vejo o rastro de destruição que as chuvas de verão causaram à cidade e à população de Petrópolis, RJ, apelidada de “a cidade imperial”, localizada na região serrana fluminense. A lama que descia da encosta do morro arrastava casas, veículos e pessoas. Os últimos levantamentos dão conta de mais de duas centenas de mortos e cerca de mil desabrigados. Muita lama. Ruas alagadas. Lojas invadidas. Muita tristeza! Foram dias atrozes!
Petrópolis nasceu sob os auspícios de D. Pedro I, na longínqua década de 1820, quando percorria o “Caminho do Ouro”, do Rio de Janeiro a Minas Gerais, e se encantou pela região, onde hoje se encontra a cidade. Adquiriu a fazenda do Córrego Seco, rebatizada de Imperial Fazenda do Córrego Seco, onde pretendia edificar um palácio. No entanto, somente em 1843, seu filho D. Pedro II, através de um decreto imperial, determinava o assentamento de uma povoação, com a vinda de imigrantes alemães e, em 1845 deu início à construção do tão sonhado palácio, inaugurado em 1847. O núcleo urbano, onde hoje se encontra o centro histórico foi concebido pelo major Júlio Frederico Koeler, onde se encontravam o Palácio Imperial, prédios públicos, comércio e serviços. Depois a cidade recebeu de braços abertos outros povos, como os portugueses, sírios, libaneses e italianos.
A cada ano, durante o verão, a cidade tornava-se a capital do Império Brasileiro, com a mudança de toda a Corte e a elite, que fugiam dos surtos de febre amarela e outras moléstias infecciosas de verão, que assolava o Rio de Janeiro. Dos 49 anos que D. Pedro II reinou, pelo menos, quarenta verões passou em Petrópolis, no Palácio Imperial, uma espécie de ‘casa de campo’.
Já no regime Republicano, a situação era a mesma, devido a insalubridade carioca, tanto que, os presidentes da República e seus ministros, no verão, despachavam da cidade serrana. Entre 1894 e 1902, Petrópolis foi capital do estado do Rio de Janeiro, em substituição a Niterói, devido à Revolta da Armada, tendo como sede de Governo, o Palácio Rio Negro, localizado na Avenida Koeler, no centro histórico. Em 1903 o imóvel foi transferido para o Governo Federal, tornando-se residência de verão dos presidentes brasileiros.
Como curiosidade, em 1914, em suas dependências houve a cerimônia de casamento do presidente Hermes da Fonseca, sobrinho de Deodoro da Fonseca, de 58 anos, com a jovem petropolitana, de 27 anos, Nair de Teffé, pintora, cantora, atriz, pianista, caricaturista, admirada por sua beleza e inteligência.
Petrópolis adquiria, cada vez mais, beleza e encantamento, além de prestígio. De clima ameno, e uma riqueza histórica e cultural, atraí turistas o ano todo. Por décadas fez parte do cenário político brasileiro, fartos foram os atos governamentais assinados na cidade, entre eles: em 1903, o ‘Tratado de Petrópolis’, que incorporou o Acre ao Brasil, comprado que fora da Bolívia; e, durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), ocorreu a assinatura da declaração de guerra dos países americanos às Potências do Eixo.
Vale ressaltar, que a Catedral de São Pedro de Alcântara, em estilo neogótico, guarda os restos mortais do imperador D. Pedro II, da imperatriz Tereza Cristina, da princesa Isabel e do Conde D’Eu.
Entretanto, nem tudo são flores. Durante a década de 1970, funcionou na cidade a ‘Casa da Morte’ um dos principais centros de tortura do regime militar, em ação ideológica e de terror. Na casa foram torturados e executados, sumariamente, os guerrilheiros com papel de destaque em suas organizações, tidos como ‘comunistas’.
Atualmente, é necessário muito esforço para que Petrópolis se recupere dessa ‘chuva de verão’, que se abateu sobre a cidade. Nada de pessimismo! Nada de sucumbir face aos acontecimentos! É hora da reconstrução! Que as famílias atingidas continuem a ter fé no Criador! E que a cidade continue a ser guardiã da história brasileira, cujo bicentenário da independência será comemorado em 2022.
Um abraço fraterno ao povo petropolitano!
José Antonio Merenda
Escritor, historiador e membro
da ABC – Academia Barretense
de Cultura – Cadeira nº 29.