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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Artigos

Semana de Arte Moderna – 1922 – 2022

Caros leitores,
Hoje, 13 de fevereiro, faz exatos cem anos da abertura da Semana de Arte Moderna de São Paulo, também conhecida como ‘Semana de 22’, a qual estendeu-se nos dias 15 e 17. Foi realizada no Teatro Municipal de São Paulo, com exposições de pinturas e esculturas no saguão, cujo conteúdo escandalizou a sociedade da época e, no palco, aconteciam conferências e palestras sobre estética, além de declamações e apresentações de música. Foi a primeira expressão do modernismo brasileiro, uma referência cultural do século XX e divisor de águas na cultura, enfim, uma ruptura com o passado e o conservadorismo, ao apresentar ideias arrojadas e novos conceitos artísticos e literários, proporcionando uma maneira mais livre de expressão.
A Semana de Arte Moderna, aconteceu na efervescência do pós-guerra, momento de modificações sociais, políticas e econômicas de início da década de 1920 e prestes às comemorações do primeiro centenário da Independência do Brasil, quando o nacionalismo aflorava, tudo se renovava na mentalidade da sociedade. O evento foi um fenômeno eminentemente urbano e paulistano, a São Paulo da garoa, conectado ao crescimento da cidade nos anos 20, à industrialização, à migração maciça de estrangeiros e à urbanização.
Vale ressaltar que o movimento foi organizado por um grupo de intelectuais e artistas, e respaldado por Washington Luís, presidente do Estado de São Paulo. O evento saiu em defesa de um novo ponto de vista estético, um estilo novo, com novas tendências, nova forma de pensar, enfim, uma agitação cultural e uma ebulição de novas ideias, além do compromisso com a independência cultural do país.
Embora, esta quebra de paradigma fosse alvo de críticas à época, como três dias de escândalo, com direito à vaias, insultos, impropérios e algazarra, pois as pessoas ficaram desconfortáveis com tais apresentações e não conseguiram compreender a nova proposta de arte: pinturas extravagantes, esculturas absurdas, poesias sem rima e nem métrica, referia-se aos vanguardistas como “subversores da arte”, “espíritos cretinos e débeis” ou “futuristas endiabrados”, e ainda, chegaram a ser comparados aos doentes mentais e loucos, porém, a Semana de 22, foi uma renovação de linguagem, busca pelo experimental e liberdade criadora, incluiu exposição com cerca de 100 obras, aberta diariamente no saguão do teatro, e três sessões lítero-musicais noturnas, cada dia da semana trabalhou um aspecto cultural.
Caso interessante aconteceu no dia 17 de fevereiro, sexta-feira, último dia da Semana de 22, na apresentação musical do maestro Villa-Lobos, com participação de vários músicos. A Semana que havia iniciado com um grande número de espectadores, chegava ao fim com público reduzido. A plateia se comportava com maior respeito, até que Villa-Lobos entrou de casaca, mas com um pé calçado com um sapato, e outro com chinelo; o público interpretou a atitude como futurista e desrespeitosa, vaiando o músico de maneira perversa. Mais tarde, o maestro explicaria que não se tratava de modismo e, sim, de um calo inflamado.
Em declaração, o modernista Mário de Andrade confessa que não sabe como teve coragem para declamar versos diante de uma vaia tão barulhenta. Por fim, no dia 18 de fevereiro, uma nota no jornal ‘O Estado de São Paulo’ dava a medida dos sentimentos desencadeados pelas circunstâncias: “Na última pagodeira da Semana Futurista foi preciso fechar as galerias para evitar que o palco se enchesse de batatas”.
Apesar do susto e escândalo que a Semana de Arte Moderna causou nos espectadores, e pouca relevância à época, com o passar do tempo obteve o sucesso merecido. Exemplos disso foram criadas inúmeras revistas, movimentos e manifestos, diversos grupos de artistas se reuniam com o intuito de disseminar esse novo modelo, reverberando ao longo do século, através dos artistas e seguidores, consequências da Semana de Arte Moderna.

 

José Antonio Merenda
Escritor, historiador
e membro da ABC – Academia
Barretense de Cultura
Cadeira nº 29

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