Artigos
Ordem e Progresso
Caros leitores,
15 de novembro, primavera de 1889, cai o regime monárquico, o único da América do Sul, e floresce um novo regime: a República. Troca-se o imperador por um presidente; separa a Igreja do Estado; o povo passa de súdito à cidadão; entre outras novidades.
No entanto, algumas ponderações e reflexões são necessárias. O movimento republicano cresce, principalmente após a Guerra do Paraguai. A “Questão Religiosa”, quando dois bispos se rebelam e são presos; a aristocracia rural se revolta, em virtude da abolição da escravatura, sem a indenização aos senhores de escravos; a desconfiança de um terceiro reinado, com fortes rumores que o Brasil seria governado por um estrangeiro, o Conde d’Eu, francês e marido da princesa Isabel, herdeira do trono; a ‘Questão Militar’, revolta pela melhoria nos quarteis, pois os oficiais se sentiam desprestigiados e desrespeitados, em certas medidas do Império; essas e outras razões, levaram a monarquia a perder o apoio e sua consequente queda.
Seria cômico, se não fosse trágico. Os dois maiores acontecimentos políticos brasileiros no século XIX, a Independência, em 1822, e a Proclamação da República, em 1889, ocorreram em meio a problemas de saúde dos protagonistas. No caso da Independência, no Riacho do Ipiranga, D. Pedro estava com uma tremenda diarreia. Ao parar no riacho, recebera péssimas notícias vindas da Corte, entregues por um mensageiro, com relatos de pressões de Portugal, provocando uma ira no príncipe. Então, num gesto abrupto corta os laços com a Coroa. Na oportunidade havia pouquíssimas pessoas, a não ser a tropa de D. Pedro. Após cinquenta anos o pintor Pedro Américo concebia o quadro ‘Independência ou Morte’, onde retrata o ‘Grito do Ipiranga’, de forma romantizada; a proclamação da República, tramada nos quartéis, mais uma vez acontecia sem a participação popular, onde o marechal Deodoro da Fonseca, designado para liderar o golpe, encontrava-se velho e enfermo, quase sem fôlego, vítima de uma dispneia. Muitos não acreditavam que ele conseguisse montar no cavalo e depor o Gabinete do Visconde de Ouro Preto, colocando fim à monarquia. No entanto, no quadro pintado por Henrique Bernardelli, Deodoro aparece sobre um cavalo baio, com o braço direito esticado segurando um quepe, passando para a história, como um gesto de ‘Viva a República’.
Por outro lado, os republicanos eram adeptos do positivismo do filósofo francês Auguste Comte, cuja doutrina estava em decadência na Europa na segunda metade do século XIX, mas em ascensão no Brasil. Era um conjunto de ideias filosóficas e políticas que seduziam e inspiravam toda uma geração de intelectuais brasileiros, em especial, o meio militar, com o lema ‘Ordem e Progresso’, posteriormente inserido na bandeira brasileira. Entre eles achava-se o professor e tenente-coronel Benjamin Constant, mentor da proclamação da República.
No entanto, Deodoro da Fonseca, incumbido de proclamar a República, era monarquista convicto, amigo de D. Pedro II e não acreditava que a República resolvesse todos os problemas do Brasil. Após destituir o Gabinete de Ouro Preto, ainda confuso, retorna para casa e vai dormir.
A Monarquia fora responsável, em seus 67 anos de duração, pela consolidação da unidade nacional, após duras batalhas. Contudo, muitos acreditavam que, com o novo regime, o país iria se fragmentar em diversas republiquetas, a exemplo da América Espanhola, o que não aconteceu.
Entrementes, de maneira lamentável, no alvorecer da República, imperava um clima de ódio, semelhante ao Regime do Terror, de Robespierre, logo após à Revolução Francesa, no século XVIII. Muitas perseguições, repressões e até massacres de revoltosos, principalmente, nos governos militares de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, este apelidado de ‘Marechal de Ferro’.
Em seus 132 anos, a República viveu diversas fases: a República Velha, que pouco diferia da monarquia; momentos democráticos e ditatoriais; golpes de Estado, deposições, renúncias, bem como, suicídio de um presidente; uso de preceitos de legalidade constitucional, com o ‘impeachment’ para afastar o presidente da República e movimentos populares, que fortalecem a democracia.
Apesar dos altos e baixos, o povo brasileiro vem trilhando um longo caminho em busca de sua cidadania.
José Antonio Merenda
Historiador e membro da ABC – Academia Barretense de Cultura – Cadeira nº 29