Artigos
Mauá, um empreendedor no Império
Caros leitores,
Ainda sobre personagens de nossa história, presentes na trama ‘Nos tempos do Imperador’. Dentre eles, está o Barão de Mauá, interpretado por Charles Fricks. Primeiro, Barão (1854) e, depois Visconde (1874). Um homem incrível, à frente de seu tempo. Um visionário no Brasil imperial, ao antever novos rumos para o País, sendo considerado um dos empreendedores mais importantes do século XIX, tempos de inovações tecnológicas e científicas.
Nascido em 1813, o gaúcho Irineu Evangelista de Sousa, quando criança, teve o pai assassinado, foi abandonado pela mãe e criado pelo tio. Partiu do nada, ganhou renome e com talento para os negócios, progrediu. Era inteligente e ambicioso, com isso soube aproveitar as oportunidades que lhe deram. Quando garoto fora balconista e engraxate, com o dinheiro ganho comprava livros. Um freguês um dia se interessou por ele e se dispôs a ensinar-lhe contabilidade. Aos 23 anos se torna sócio-gerente da empresa de importação e exportação Carruthers & Cia. Nessa época já dominava o idioma inglês. Um ano após, o escocês Carruthers, proprietário da empresa, retira-se para a Europa, deixando-o à frente dos negócios no Brasil. Em 1840, o jovem e competente Irineu, realiza a primeira viagem à Inglaterra, a negócios, onde conhece uma nova realidade e os reflexos da Revolução Industrial naquele país.
Humanista, liberal e abolicionista, defensor de um comércio livre, trabalhadores libertos e com salários, só assim, o Brasil alcançaria prosperidade econômica. É de bom alvitre ressaltarmos que, Mauá tratava seus empregados, como “auxiliares”, composto, em sua maioria, de negros alforriados. Além disso, dava abrigo aos fugitivos. Por esse motivo ganhara a antipatia dos senhores de escravos.
Quando retornou da Inglaterra trouxe, em sua bagagem, novas ideias, como a ferrovia e a industrialização, tão comuns por lá e desconhecidas no Brasil. Era um entusiasta, otimista e ousado em busca de seu sonho de industrializar o Brasil, pois era contra a dependência de produtos manufaturados oriundos da Europa. Não obstante, o país era estritamente agrícola, com uma aristocracia rural forte e conservadora, capaz de desafiá-lo, além da vergonhosa mão de obra escrava. No entanto, ele não desanimava, tinha plena confiança no futuro. A construção de estradas de ferro e a navegação fluvial eram importantes para escoar os produtos advindos da agricultura e da indústria, numa verdadeira integração nacional. Logo começam a germinar os seus empreendimentos. Foi um pioneiro na construção de ferrovias; implantou a primeira fundição de ferro e estaleiro no país; o início da exploração do rio amazonas e seus afluentes, bem como o rio Guaíba, no RS., entre outros, com navegação em barcos à vapor; a instalação da iluminação pública à base de gás no Rio de Janeiro, à época, capital do Império; além de instalação do cabo submarino telegráfico ligando a América do Sul à Europa, com melhora nas comunicações; além de outras façanhas empresariais.
Para dar sustentação aos seus empreendimentos, Mauá fundou diversas instituições bancárias, tais como, o Banco Mauá & Cia. e o segundo Banco do Brasil, que operava com depósitos e redescontos, até que, em 1853, foi incorporado ao Governo Imperial, sendo ele o principal acionista. Vale ressaltar, que o primeiro Banco do Brasil, fora fundado, em 1808, pelo príncipe Regente D. João, que aqui chegara fugitivo das tropas napoleônicas, que invadira Portugal. Por essa razão, se aportaram com ele cerca de 10 a 15.000 portugueses, que traziam dinheiro e ouro e necessitavam guardá-los com segurança. Entretanto, quando retornou a Portugal, em 1821, levou as reservas de ouro, e se não bastasse, D. Pedro I, saqueou os seus cofres, ao custear a Guerra da Cisplatina, atual Uruguai. Não resistiu e sucumbiu, em 1829. Só ressurgiu 25 anos depois, graças à audácia de Mauá.
Em 1878, após vários empreendimentos não terem os resultados almejados, os bancos de sua propriedade atravessam um período dramático e vão à bancarrota.
No fim da vida, o Visconde de Mauá, desacreditado e sem dinheiro, trabalhou como corretor de negócios de café. No entanto, seus esforços não foram em vão e reverberaram no tempo.
Em 21 de outubro de 1889, morre em Petrópolis, aos 76 anos.
José Antonio Merenda
Historiador, membro da ABC – Academia Barretense de Cultura – Cadeira nº 29