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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Artigos

Dantes exclamávamos mais

Tudo começou num simples e casual comentário de uma jovem por trás de um sorriso disfarçado, exatamente assim “ minha mãe ama um ponto de exclamação “. Risadas. Estávamos voltando para casa, após um dia considerado diferente, produtivo e divertido de aniversário da nossa cidade, comemorado em outra, com direito a uma paradinha na Sorveteria do Geraldo.
Justifiquei então, que eu e a mãe dela somos de uma época, em que as aulas nos traziam ensinamentos de produção de textos, em forma de “ composição a vista de gravuras”. A professora mostrava-nos cartazes belíssimos com ilustrações coloridas e ia nos demonstrando em frases perfeitas e muitas exclamativas para nos fazer delirar frente aos caminhos que a escrita nos proporcionaria. De repente, estávamos nós em um dia de férias perfeito, em uma formosa praia ou numa fazenda de indescritível beleza. Para mim, era sensacional, pois naquela época não fazíamos viagens tal qual se faz hoje, mas aquelas gravuras nos permitiam sonhar com elas. Que dia lindo (exclamação ) Que praia maravilhosa (exclamação)…assim íamos descortinando cenários e nem precisávamos de usar outros sinais de pontuação, já que o mais belo dizia em poucas palavras o demasiado para nós.
Somos crianças da época em que se tomava coca- cola como recomendação médica quando se estava doente. Sim, aconteceu conosco na fase do sarampo. Que comemoração efusiva! Eu e minha irmã amamos ter sarampo com indicação “ dê coca- cola para elas”. E isto sem contar-lhes das maçãs deliciosas oferecidas durante a convalescença do tipo “ argentinas”.
Não fomos a Disney, mas estivemos em Campos do Jordão, onde nossa tia morava, e visitamos o Morro do Elefante, com seu teleférico. Que passeio gigantesco!
Porém, quando o caminhão que papai possuía levou uma elefanta de um circo para um passeio na cidade, convidando para as atrações circenses, fiquei maravilhada. Então, isso nos faz exclamar até hoje diante de lembranças tão incomuns.
Fomos crianças de uma década feliz e de expectativas de que poderia ser ainda melhor quando crescêssemos.
Comemoramos intensamente na escola onde estudávamos, a chegada da turma forte do achocolatado do oeste, nos anos 70 que nos forneceu a deliciosa bebida e deixou nossos cadernos todos ilustrados com um garoto cowboy superforte segurando de forma impactante um trem.
Realmente havia muitos motivos para exclamações.
Hoje, tudo saturou-se. Quase não há nada que nos cause espanto, surpresa, admiração, entusiasmo , susto, exaltação. Para que ponto de exclamação? Estamos vivendo um tempo de interrogações (?). Tempo sem respostas definidas.
Ele, o exclamativo, se sujeitou a nos deixar indignados e perplexos ante a capacidade que o ser humano desenvolveu em nos impactar com aquilo que não é bom e traz sofrimento. Veja o caos que vivemos neste início de década pandêmico. Sim. É o caos! Deus nos salve! Deus nos livre! Deus nos guarde!
Exclamamos suplicantes, por um futuro melhor e feliz, além das lembranças da nossa infância.

Rita de Cássia Minuncio
Professora e Psicopedagoga

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