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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Artigos

E essa tal Meritocracia?

Muito se ouve dizer sobre a tal da ‘meritocracia’. Sentidos e sentimentos paradoxais para além do termo que, como postulado pelo Dicionário Michaelis, expressa uma “forma de administração cujos cargos são conquistados segundo o merecimento, em que há o predomínio do conhecimento e da competência.”
Belíssimo conteúdo! Entretanto, partindo dessa premissa, abre-se o questionamento que não cala e nem pode se calar ou ser calado: essa jornada nomeada ‘vida’ elenca idêntico ponto de partida para cada um dos seus participantes? Pelo nascimento é oferecido a cada um os mesmos direitos e possibilidades? Chegado o tempo de estudos, a todos é garantido o mesmo nível de conhecimento? Aprendem inglês, mandarim, e outros idiomas? Tem acesso à internet? Praticam esportes, familiarizam-se com a história da arte, aprendem algum instrumento musical? Visitam museus, bibliotecas?
Igualmente, faz-se necessário analisar questões pertinentes ao consumo de alimentos. Sabe-se que a produção intelectual ou física, decaí sobremaneira frente à desnutrição. A dor da fome, o vazio consumindo as entranhas, inibe a realização de qualquer tarefa e debilita o potencial de aprendizado daquele que é por ela assolado. Já diz o ditado popular: saco vazio não para em pé. Como potencializar o nível de aprendizado se o biológico fica comprometido e restringe a própria sobrevivência do indivíduo?
Segue-se para um outro ponto de reflexão concernente ao fator cuidado — o afeto, sim, ele mesmo, o amor. Qual teria sido a relação de afetividade concedida a cada uma dessas vidas? O amor é expresso em palavras e atos?
Inúmeros fatores psicossomáticos podem ser desencadeados onde imperam a agressividade, a violência moral, a miséria, a dor da fome e a falta de afetividade. Indo além, a própria neurociência afirma que ausência de afeto, mesmo para aqueles aos quais é oferecido o cuidado biológico e o aprendizado intelectual, está relacionado a mais baixos níveis de QI – Quociente de Inteligência. O elevador social é ainda mais rígido e restritivo para com as mulheres, índios e pretos que se deparam com uma nova carga de preconceitos e jargões, estereótipos aceitos e transmitidos como verdade fossem. Esses são incapazes pela origem, pelo sexo, pela cor, pela cultura.
Desse modo, os capitais social, financeiro, afetivo e econômico, desencadeadores da tal da meritocracia partem quase sempre do status quo, originando-se de um diferenciado ponto já pelo nascimento.
Vejam bem: histórias de superação podem existir, mas exceções devem representar as regras? Dessa maneira, a meritocracia tenta justificar a opressão, situando o indivíduo como o único responsável por seu sucesso? Mas, um momento! A igualdade de oportunidades não significa equidade? Novamente, propõe-se o caminho da reflexão: seria essa a realidade que a quase totalidade das pessoas encontra em seu caminho?
Max Weber (1864 – 1920) postula que os ricos e felizes, em todas as épocas e em todos os lugares, não querem apenas ser ricos e felizes. Os ricos e felizes querem que todos afirmem que eles são ricos e felizes por legítimo direito a essa riqueza e felicidade. Assim, esse lugar tem que ser legitimado perante a sociedade como real e merecedor, ainda que proporcionem total desvantagem perante outras pessoas.
Seria esta também a função da meritocracia? Legitimar perante a sociedade que aquele afortunado pelo nascimento é também o merecedor da distinção por próprios méritos? Para os que nela creem, a meritocracia personifica a justiça — qualquer um pode conquistar através de um trabalho duro, independentemente da posição social, raça, cor, etnia.
Outros acreditam que as oportunidades são reduzidas e divergentes a partir do status quo. Reflita!

Sada Ali – Psicóloga
e Membro da ABC .

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