Artigos
TESTEMUNHA OCULAR
Pandemias
Caro leitor,
Nem em pesadelo poderíamos nos imaginar em meio à esta pandemia, que assola o Brasil e o mundo, neste início da segunda década do século XXI, a qual ficará na história, e os tormentos causados à população, o medo do coronavírus, a ansiedade e a incerteza no futuro. Imagens que nos apresentam a todo tempo, exibidas nos noticiários da TV, nos jornais e revistas, testemunhas oculares dos fatos, nos impressionam.
A nossa sociedade está inquieta, partilha um sentimento geral de impotência diante desse inimigo invisível, que causa problemas respiratórios, levando o sistema de saúde ao colapso, além de causar um reflexo social, psicológico e econômico, em efeito dominó, como o desemprego e a fome durante e pós-pandemia.
As mortes estão em toda parte. Várias recomendações são feitas, como a mudança drástica de hábitos: isolamento social, principalmente o grupo de risco, acima de 60 anos ou com doenças pré-existentes; o não poder dar as mãos; o não poder abraçar o outro; o uso de máscara, caso tenha de sair de casa; lavar as mãos sempre; máscaras e roupas especiais para os professionais da área da saúde se protegerem, que mais parecem as de astronautas, e mesmo assim são infectados.
A comparação imediata se faz com a pandemia da ‘Gripe Espanhola’, que assolou o mundo em 1918, e obrigou a população, daquela época, a se proteger, se higienizar, usar máscaras. Milhares de mortes foram registradas. No Brasil, Rodrigues Alves, que fora presidente da República, de 1902 a 1906, e eleito, novamente, em 1918, não chegou tomar posse, pois já estava doente, acometido pela gripe espanhola, vindo a falecer a 16 de janeiro de 1919.
Nessa viagem no tempo, a primeira pandemia da história aconteceu na Europa, no século VI d.C, na Idade Média Alta, chamada Idade das Trevas, após a queda do Império Romano do Ocidente, quando as cidades estavam abandonadas, a economia estagnada e a população amargava uma miséria sem fim. A guerra varria o continente por causa da campanha do imperador bizantino Justiniano, em uma tentativa de reconquistar Roma. Juntando-se a isso, os europeus tiveram de enfrentar uma pandemia, também chamada de ‘Praga de Justiniano’, devido à propagação da peste bubônica, transmitida por pulgas e ratos infectados, vindos em navios. A praga teve origem no Egito, passou pelo Oriente Médio e chegou a Constantinopla, capital do Império Bizantino e dali espalhou-se pela Europa e Ásia. No ano de 540, exterminou cerca de cinco mil pessoas por dia, estimando que, cerca de metade da população de Constantinopla fora dizimada. O próprio imperador contraiu a doença, mas sobreviveu, a mesma sorte não teve sua esposa, a imperatriz Teodora, que sucumbiu à enfermidade. Segundo Celso Taveira, doutor em história bizantina e professor da Universidade Federal de Ouro Preto, MG. “a doença ataca os nódulos linfáticos, localizados nas axilas, virilhas e pescoço e formam enormes bolhas de pus. As extremidades do corpo são atacadas por necrose, o que dava aos infectados numa aparência aterradora, algo como mortos-vivos”. Cerca de 800 anos depois, no século XIV, em outra pandemia, a Europa viu-se em meio, novamente, à peste bubônica, que ficou conhecida como a ‘peste negra’, dizimando cerca de um terço da população europeia. E todos acreditavam que era a ira divina diante do desregramento e promiscuidade da sociedade, não passava pela cabeça deles que pulgas, ratos e organismos invisíveis pudessem causar o mal.
Esperamos, em breve, superar este surto, que em pleno ano de 2020, nos afeta.
(Fontes: Revista ‘Aventuras na História’, Ed. Abril, edição 106. 2012; DUBY, Georges, Ano 1000 Ano 2000 na pista de nossos medos, Ed. UNESP. SP.; BURKE, Peter, Testemunha Ocular – História e Imagem. Ed. Bauru, SP EDUSC, 2003)
José Antonio Merenda
Ator, diretor teatral, professor, historiador e
presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura