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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Artigos

POR QUE NEUROCIÊNCIAS?

Frequentemente me perguntam por que o centro de atendimento neurológico do Hospital São Jorge, recém inaugurado se chama Instituto de Neurociências. Realmente foge da denominação comumente observada em outros lugares. A questão é que a forma como nos comunicamos muda com o passar do tempo e tende a priorizar conceitos que são relevantes no momento. Por exemplo, no século19 o foco na ciência eram as máquinas a vapor, os estudos do calor, e certamente era a tônica das manifestações. No século 20, os tubos de raios catódicos, as válvulas, transistores, enfim, estavam implícitas nas atitudes e também nas propostas onde alguém desejasse mostrar o que fazia. Hoje, temos o mundo quântico se manifestando nos nossos celulares, a matemática estatística dominando a ciência inclusive a biológica, e a medicina se deslocando meio perdida, tentando achar um ponto comum entre a prática médica e as evidências cientificas.
Que linguagem usar? Se desejo dar um nome para o novo serviço oferecido, devo também usar a linguagem atual, aquela que melhor mostre a proposta. As neurociências representam a abertura do leque de interesses para muito além da neurologia ensinada nas escolas e treinadas nas residências, que por melhor que sejam, são conservadoras e voltadas para o atendimento de massas, de maneira impessoal. As evidencias cientificas escolhidas para servirem de base para o exercício local da especialidade são determinadas de diferentes maneiras, nem sempre uniformes, levando em conta as características locais, como de resto ocorre em todo lugar, as vezes disfarçadamente.
Olhar a neurologia pelos olhos das neurociências amplia o leque de possibilidades, entrelaça áreas próximas como a psiquiatria, a psicologia, a estatística médica, a genética, e nos empurra para longe do lugar comum que atribui o que não se compreende bem ao ‘’psicológico’’, evitando assuntos difíceis como elucidar as bases neurofisiológicas da depressão, da ansiedade, as manifestações emocionais no curso de doenças crônicas, como a dor crônica e a enxaqueca onde ocorrem déficits de memoria e concentração entre outros.Dos critérios genéricos aplicáveis a grandes volumes de pacientes, podemos fazer uma medicina personalizada, voltada para o paciente, único. Alguém que sofre de esclerose múltipla pode ter manifestações afetivas que podem ser encaradas por métodos neurofisiológicos e melhor equacionadas no contexto da doença e não de forma dissociativa dizendo… bom… isso não é neurológico… se vire… na melhor das hipótese, encaminhando para outro profissional sem uma perspectiva multidisciplinar. Crianças hiperativas e desatentas podem ser confundidas com crianças mal educadas. Autismo leve também se confunde com desatenção e hiperatividade e a oportunidade de tratamento precoce se perde. Nas neurociências fazemos como o astrônomo que observa o céu no espectro da luz visível, mas completa o estudo com a luz ultra violeta, a infra vermelha, a radiação X, a radiação gama, enfim com o que os olhos não veem mas além de existirem, são fundamentais para a compreensão do cosmos. Nosso cosmos é o cérebro, e dispomos de excelentes métodos de estudo dele, mas que, por serem dificílimos, não encontram aplicação justamente porque os serviços médicos não dispõem da infra estrutura necessária para o processamento desses dados.
Há oito anos, criamos na cidade de Araraquara um laboratório de neuroinformatica, com infra estrutura de informática, estatística e engenharia de dados, capaz de processar sinais biológicos, notadamente sinais de eletroencefalograma, desde os processamentos lineares, mais simples, até os não lineares, muito mais complexos e melhores. Esse laboratório também esta disponível para o Instituto de Neurociencias do Hospital São Jorge, que esta diretamente ligado a ele em tempo real. Como consequência, podemos ter acesso a métodos com fortíssima evidencia cientifica, embora pouco utilizados justamente porque são de difícil execução. Instituto de Neurociências diz tudo. Mostra a proposta. A nossa forma de ver a pessoa com queixas neurológicas, dentro de um universo maior, mais humano e mais pessoal.

José Reynaldo Walther de almeida CRMSP 28475
Médico do Instituto de
Neurociências do Hospital
São Jorge de Barretos

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