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Carta Placuit Deo
A Congregação para a Doutrina da Fé, com aprovação do Papa Francisco, publicou a Carta Placuit Deo aos Bispos da Igreja Católica, sobre alguns aspectos da salvação cristã. Essa Carta destaca alguns aspectos da salvação cristã que possam ser hoje difíceis de compreender por causa das recentes transformações culturais.
O individualismo tende a ver o homem como um ser cuja realização depende somente das suas forças. Nesta visão, a figura de Cristo corresponde mais a um modelo que inspira ações generosas, mediante suas palavras e seus gestos. Difunde-se também a visão de uma salvação meramente interior.
O Santo Padre Francisco já se referiu muitas vezes a essas tendências que se assemelham ao pelagianismo e ao gnosticismo. Prolifera em nossos tempos um neopelagianismo em que o homem pretende salvar-se a si mesmo. A salvação é então confiada às forças do indivíduo ou a estruturas meramente humanas.
E o neognosticismo, por outro lado, apresenta uma salvação meramente interior, consistindo no elevar-se com o intelecto rumo aos mistérios da divindade desconhecida. Pretende-se, assim, libertar a pessoa do corpo e do mundo material.
Diante disso, a Carta pretende reafirmar que a salvação consiste na nossa união com Cristo, que, com a sua Encarnação, vida, morte e ressurreição, gerou uma nova ordem de relações com o Pai e entre os homens, e nos introduziu nesta ordem graças ao dom do seu Espírito, para que possamos unir-nos ao Pai como filhos no Filho, e formar um só corpo no primogênito de muitos irmãos (Rom 8,29).
A fé proclama que o mundo inteiro é bom, enquanto criado por Deus (cf. Gen 1,31; Sab 1,13-14; 1Tim 4,4), e que o mal que mais prejudica o homem é aquele que provém do seu coração (cf. Mt 15,18-19; Gen 3,1-19). Pecando, o homem abandonou a fonte do amor, e se perde em falsas formas de amor, que o fecham cada vez mais em si mesmo. De fato, é a pessoa inteira, em corpo e alma, criada pelo amor de Deus à sua imagem e semelhança, que é chamada a viver em comunhão com Ele.
É exatamente assumindo a carne (cf. Rom 8,3; Heb 2,14; 1 Jo 4,2) e nascendo de uma mulher (cf. Gal 4,4), que o Filho de Deus se fez filho do homem e, também, nosso irmão (cf. Heb 2,14). Assim, ao fazer-se parte da família humana e assumir a carne humana, longe de limitar a ação salvífica de Cristo, permite-Lhe mediar de maneira concreta a salvação de Deus com todos os filhos de Adão.
Concluindo, Jesus é Salvador, não apenas por nos mostrar o caminho para Deus, ou seja, o caminho que poderemos percorrer por nós mesmos, obedecendo às suas palavras e imitando o seu exemplo. Cristo, todavia, para abrir-nos a porta da libertação, tornou-se Ele mesmo o caminho: “Eu sou o caminho” (Jo 14,6). Jesus ofereceu-nos um “caminho novo e vivo que Ele abriu para nós através da sua carne” (Heb 10,20).
Enfim, Cristo é Salvador porque Ele assumiu a nossa humanidade integral e viveu em plenitude a vida humana, em comunhão com o Pai e com os irmãos. A salvação consiste em incorporar-se nesta vida de Cristo, recebendo o seu Espírito (cf. 1 Jo 4,13). Assim, Ele é, ao mesmo tempo, o Salvador e a Salvação.
Mario Eugenio Saturno (cientecfan.blogspot.com) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.