quinta-feira, 20 de setembro de 2018

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Páscoa: onze por um!

No calendário litúrgico, o tempo pascal estende-se por cinqüenta dias, até a festa de Pentecostes, que celebra a vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos, o envio para a missão e o nascimento da Igreja. Ao longo do período pascal as atenções concentram-se, de forma especial, sobre os desdobramentos da ressurreição que, para além da compreensão intelectual, precisa ser digerida espiritualmente, pelo grupo dos seguidores de Jesus. Temos muito a aprender através deste período que rememora, de forma particular, o núcleo da fé cristã.
A compreensão da ressurreição e, mais ainda, a experiência pessoal do encontro com O ressuscitado ocupa lugar central na vida de cada discípulo, de todos os discípulos e da Igreja, comunidade dos Seus seguidores. As Sagradas Escrituras ressaltam esta importância: Jesus é o nome terreno do Filho de Deus, enquanto Cristo, que significa Senhor, denomina o Ressuscitado. Á luz da Ressurreição relemos a história, o passado, o presente e o futuro; ela é referência para toda e qualquer consideração a respeito da vida de cada cristão, de todos os cristãos e da Igreja.
No contexto da paixão e morte de Jesus, destaca-se o episódio da traição, que evidencia a emblemática figura de Judas. No conjunto da obra, á luz da ressurreição, Judas presta um relevante serviço á história da salvação. Humanamente ele trai, mas espiritualmente, colabora para que a revelação do amor de Deus alcance o ponto mais alto. O Iscariotes representa todos os que se dispõe a seguir Jesus, convivem com os discípulos, estão na Igreja, por vezes em tarefas de confiança, e que, na última hora, tomados pelo espírito da divisão e corrupção traem a si e as razões da fé.
Lançar um olhar saudável sobre as situações fatídicas da vida é fundamental. Esse movimento espiritual significa mais que simplesmente ser positivo ou otimista, ser fiel. Hoje, todas as vezes que me deparo com um ‘Judas’ agradeço e rezo: “Você não tem noção do bem que me fez”. Graças a eles aprendemos a confiar mais em Deus, a ter consciência de que, mais cedo ou mais tarde uma tragédia, em forma de traição, baterá a nossa porta. A força da ressurreição está em que, mesmo que nos fira profundamente não roubará de nós a essência da vida: amor, fé e esperança.
É comum destacar atitude de Judas, o que não faz sentido algum. Concentra-se no traidor, ignora-se os fiéis; destaca-se a crueldade, ignora-se a fidelidade; ressalta-se o poder da traição, ignora-se o poder do amor; dedica-se tempo a explicar ações dos que traem, tira-se o foco das ações e ações dos que permanecem até o fim. Para cada ‘um’ traidor existem ‘onze’ fiéis! Esta verdade de vida e de fé a páscoa nos possibilita descobrir, compreender, alcançar e experimentar. Mudemos o foco!

Ivanaldo Mendonça
Padre, Pós-graduado em
Psicologia
ivanpsicol@hotmail.com

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