quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

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Paraisópolis: o sistema não perdoa

Os noticiários da semana deram visibilidade à tragédia que dizimou a vida de nove pessoas em Paraisópolis, favela da capital paulista, com cerca de 100 mil habitantes. Na madrugada de 1º de dezembro, cerca de 5 mil pessoas participavam de um baile funk, a céu aberto. Segundo a polícia, em perseguição a bandidos que adentraram o espaço do baile, a multidão, descontrolada, provocou ferimentos e mortes. De acordo com os populares, a polícia encurralou e agrediu a todos provocando as mortes. As vitimas fatais tinham idade entre 14 e 23 anos.
O ocorrido divide opiniões. Quem considera baile funk atividade promovida pelo tráfico de drogas incrimina todos os participantes como únicos responsáveis pela tragédia; os que consideram os ‘pancadões’ uma das poucas ou únicas opções de entretenimento para os jovens das favelas culpam a polícia.
Reduzir a questão, simplesmente a culpados e/ou inocentes em nada resulta. Como reivindicado por diversas instituições da sociedade civil, faz-se necessário esclarecer os fatos e punir os responsáveis. No entanto, este movimento ainda não é suficiente para resolver a questão. Brevemente seremos surpreendidos por tragédias tão iguais ou piores. Faz-se necessário refletir consciente, madura e responsavelmente acerca do nefasto sistema que origina, alimenta e promove atrocidades como esta e tantas outras com as quais temos, facilmente, nos acostumado.
Sistema é o conjunto de elementos interdependentes que formam um todo organizado; sistema social é o conjunto das instituições econômicas, morais, políticas a que os indivíduos se subordinam. Enquanto a integração saudável entre elementos do sistema gera equilíbrio, seu mau funcionamento pode provocar falência. O sistema perpetua seu poder devastador contrapondo, inclusive, elementos cujos esforços devem se complementar, no caso, polícia e população.
Enquanto pais, inconformados, sepultam os corpos de seus filhos, enquanto nos destruímos contra ou a favor destes ou daqueles, ele dorme tranquilo. O sistema é invisível, espanca a todos, os de um lado e de outro, sem por as mãos. O sistema não pensa, não sente, não se comove, tampouco se move. O sistema impera através daqueles que falam de tudo, sobre todos e para todos, mas, não se comprometem com nada e ninguém. Para o sistema, tudo deve continuar como está. O sistema não perdoa.

Ivanaldo Mendonça
Padre, Pós-graduado em Psicologia
ivanpsicol@hotmail.com

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