terça-feira, 15 de outubro de 2019

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O homem mídia

A reflexão sobre as masculinidades tem ocupado cada dia mais espaço no cenário social e científico. Parece fácil, mas não é.

Para a investigação de como é construída a ideia subjetiva e objetiva do que é considerado masculinidade, é preciso articular um conjunto de variáveis, como recortes de gênero, etnia, orientação sexual, territorialidade, história, cultura.
Numa primeira aproximação podemos constatar que, parafraseando a célebre frase de Simone de Beauvoir “não se nasce homem, torna-se homem”, ou seja, que o padrão de comportamento masculino se forma a partir de influências culturais.
Claro que há marcadores genéticos e biológicos que distinguem o sexo masculino do sexo feminino e que são herdados. Porém, gostar de jogar futebol ou brincar de boneca não são heranças genéticas, são traços culturais que aprendemos ao longo do processo de socialização. Apesar de muitos dos traços culturais do masculino estar disfarçados como naturais, os homens aprendem a serem homens quando entram na sociedade. E esses padrões são diferentes no tempo e no espaço.
No passado, os homens usavam túnicas. Atualmente, em muitas sociedades homens devem usar calças, em outros lugares continuam usando túnicas. Ou seja, o comportamento do homem na sociedade não é natural é aprendido.
E quem ensina os homens a serem homens? Muitos agentes sociais contribuem para esse aprendizado: a família, a escola, para algumas pessoas, a igreja. Mas não se pode deixar de lado a influência dos meios de comunicação nesse aprendizado.
Atualmente a mídia configura os valores das pessoas compartilhados socialmente. Pesquisadores gastam horas de seu tempo para identificar a contribuição da mídia na configuração dos padrões de comportamento social. E em tempos de redes sociais digitais isso ainda ficou mais intenso.
Os profissionais que atuam na mídia fazem pesquisas, detectam padrões de comportamento e reproduzem por meio dos seus produtos (novelas, campanhas publicitárias) esses padrões, que acabam convencendo as pessoas que para ser bom deve-se agir dessa ou daquela maneira ou para ser bonito, deve-se usar essa ou aquela roupa, entre outras coisas.
O padrão de masculinidade também é reforçado e construído midiaticamente. Por exemplo: “homem deve ser forte”; “homem deve usar azul e não rosa”; “homem não chora”; homem que é homem aguenta a dor sem reclamar. Para não falar das aspirações de riqueza e sucesso.
Você já parou para pensar quantos comportamentos e valores que você acredita e adota não são escolhas suas, mas apreendidos socialmente e midiaticamente?

Jorge Miklos é Sociólogo, Psicanalista e Professor e pesquisador do Curso de Pós-Graduação em Comunicação.

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