quinta-feira, 18 de abril de 2019

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O Evangelho de Marcos

Quando eu era ateu, comecei a ler o Evangelho segundo Mateus para conhecer o cristianismo. Aconteceu meu processo de conversão, lenta, muito lenta, mas contínua e que ainda não encerrou e talvez eu morra sem completar.
Li os demais livros da Bíblia, mas ficou uma má impressão do Evangelho de Marcos, incompleto, pobre de ideias e até de desordem. Era assim também que via Pápias (um escritor do primeiro terço do século II e um dos primeiros líderes da igreja cristã). Se observar, outro escritor deu um novo final mais coerente (ver Mc 16,9-20).
A própria Igreja, no lecionário festivo, até o Vaticano II, utilizava Marcos apenas quatro vezes. Somente no século XVIII, a atenção geral voltou-se para ele, primeiramente como fonte para uma reconstrução histórica dos traços humanos de Jesus e, em seguida, como autor de um pensamento teológico coerente. As indagações postas por William Wrede, em 1901, sobre a relação entre história e teologia influenciaram a exegese até hoje. Hoje, Marcos está entre os mais estudados.
O evangelho é composto de aproximadamente 95 narrativas, com 11.240 palavras, 1.345 vocábulos, e 30 ápax -vocábulos não usados em outros lugares do Novo Testamento-. A língua é o grego popular da koiné, com semitismos (talithà kum, efethâ, korbân, Abbà) -que não justificam um original aramaico-, e ainda alguns latinismos (praitórion, kentyrion), com estilo vivaz, próprio da língua falada, pouco cuidado gramatical e sintático, que privilegia a parataxe -coordenação assindética, ou seja, não usa conjunções-, emprega anacolutos (cerca de 20) com repetição de frases. Tudo evidencia o estilo do narrador, atestado também pelo frequente “logo em seguida” e pelo presente histórico (150 ocorrências), falando ao leitor de modo simples e espontâneo.
Nas últimas décadas surgiram várias dúvidas da autoria deste evangelho. Um Marcos judeu da Palestina, colaborador de Pedro e Paulo, não se encaixa bem, pois o evangelho mostra certa ignorância da geografia da Palestina, dos costumes judaicos, do calendário, uma fraca influência da pregação dos dois apóstolos. Por outro lado, se fosse para atribuir o texto a uma pessoa que não o autor verdadeiro (pseudonimia) teriam escolhido um apóstolo e não um homem com menos autoridade, como era Marcos na Igreja primitiva. Além disso, elementos literários e teológicos, concordam com o Marcos da tradição.
Marcos provém do Judaísmo, chamado João Marcos (cf; At 1 2,12-25; 15,37), primo de Barnabé (Cl 4,10), com quem está em estreita relação (At 15,36-40), bem como com Pedro, que após a sua milagrosa saída da prisão refugiou-se ao lado da mãe de Marcos, Maria, proprietária de uma casa que se tornou centro de oração para a comunidade cristã (At 12,12). Segue Paulo na primeira viagem missionária, ainda que depois o abandone (At 12,25; 13,5) e volta para Chipre junto com Barnabé. Estará novamente próximo do apóstolo dos gentios, prisioneiro em Roma (Fl 24), de quem ele se torna valoroso colaborador (2Tm 4,11). Está ligado à figura e à pregação de Pedro, de quem é reconhecido “intérprete” (ermeneutés) por Pápias, mais que um tradutor ou porta-voz. Uma cuidadosa leitura do evangelho ratifica a atribuição do texto a Marcos.

Mario Eugenio Saturno (cientecfan.blogspot.com) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.

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