quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

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ERA AMAZÔNIA. SERÁ CANAVIAL…

O rol de péssimas notícias ganhou incremento extra com a divulgação de que, dez anos depois da proibição, agora a Amazônia está liberada para cultivo de cana-de-açúcar.
Desde 6.11.2019, dia fatídico, está permitido o plantio de cana-de-açúcar na Amazônia e no Pantanal.
A medida atende ao agronegócio. Seria muito mais sensato recuperar áreas abandonadas, depois do depauperamento do solo que sofre o ciclo bem conhecido: desmatamento, plantio de cana-de-açúcar, depois pasto, depois deserto.
O decreto 6.961, de 2009, foi revogado. Ele estabelecia o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar e prevenia a invasão da Amazônia e do Pantanal, biomas frágeis e inapropriados para esse cultivo.
Em 2009, o Brasil já enfrentava a sólida suspeita internacional de que o nosso etanol provinha da destruição da natureza. A situação hoje é muito mais comprometedora, porque o Brasil acenou deixar o Tratado de Paris, mostrou ao mundo o “dia do fogo”, programação dolosa de incendiar a floresta, liberou o território para agrotóxicos proibidos em outros países e desmanchou a rede de proteção ambiental construída há décadas.
Tudo simultaneamente às ofensas verbais contra chefes de Estado e familiares, tosca alusão a uma conspiração por parte de ONGs e até resistência ao Sínodo da Amazônia, programado há vários anos pelo Papa Francisco.
O Observatório do Clima afirmou que os dois ministros que assinaram a revogação do decreto, “tidos como a ‘ala razoável’ do governo, jogam na lama a imagem internacional de sustentabilidade que o etanol brasileiro construiu a duras penas”. O ex-Ministro Sarney declarou que a liberação “significa uma permissão implícita para o desmatamento”. Foi polido, usou de um eufemismo. Na verdade, é um convite à devastação.
O pior é que as terras da Amazônia e do Pantanal são as menos indicadas para o cultivo da cana-de-açúcar. Se no Brasil as coisas se atropelam e atendem a impulsos ou a interesses setoriais, o mundo se comporta de maneira mais madura. O Brasil está desrespeitando o que ele mesmo acordara ao implementar o Renovabio. Sem dúvida, virão barreiras internacionais para o combustível brasileiro.
País acometido de burrice crônica, mata a sua “galinha de ovos de ouro”. Preservar a Amazônia poderia representar lucro muito maior do que devastar para plantar cana-de-açúcar, no momento em que o mundo todo procura matrizes energéticas sustentáveis, deixa de lado o petróleo – vide o fracasso dos leilões, tão bem definido por Paulo Guedes: “vendemos para nós mesmos” – e se decepciona com quem não sabe proteger um tesouro incalculável. Como a natureza foi um presente da Providência, não resultou de trabalho humano, os homens – pobres criaturas – não a respeitam.
Pagarão caro por isso. Na verdade, já estão pagando. Mas a conta chegará ainda mais pesada. E para logo, não para as futuras gerações.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.

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