terça-feira, 16 de outubro de 2018

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E quando o padre precisa de ajuda?

Outro dia, ao falar ao telefone com uma pessoa muito próxima a mim, meu coração sacerdotal ficou pensativo e me questionei sobre como tenho vivido minha vida e minha vocação. Ela dizia: “Acabei de sair da Santa Missa e parece que estou pior do que antes; o padre estava tão seco e frio, que não sei se encontrei Jesus naquela celebração não fosse a Eucaristia. E o pior, padre Luizinho, muitas pessoas da assembleia saíram da celebração deste jeito!”. O que dizer, nessa hora, a essa pessoa e sobre essa situação?
Quero falar primeiro aos meus irmãos sacerdotes, pois conheço de cadeira a causa de seus corações. Mergulhamos, muitas vezes, no ativismo, e, por cansaço ou falta de falar com Deus, ficamos frios em nossa experiência de fé. Usando as palavras do Papa Bento XVI no discurso de abertura do Ano Sacerdotal: “Porque ninguém se anuncia nem leva a si mesmo, mas, dentro e por meio da própria humanidade, cada sacerdote deve estar bem consciente de levar Outro, o próprio Deus, ao mundo. Deus é a única riqueza que, de modo definitivo, os homens desejam encontrar num sacerdote”.
“De fato, todo sumo sacerdote é tomado do meio do povo e representa o povo nas suas relações com Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Ele sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza. Por isso, deve oferecer, tanto em favor de si mesmo como do povo, sacrifícios pelo pecado. Ninguém deve atribuir-se esta honra, senão aquele que foi chamado por Deus, como Aarão” (cf. Hb 5,1-4).
Meus queridos sacerdotes, é claro que os sacramentos não precisam “de mais ou menos” dignidade nossa para serem válidos, mesmo que eu e você estejamos em situação de pecado, frios, secos, o sacramento é válido, pois é Cristo quem age em nós. É Jesus quem celebra e preside a assembleia dos irmãos, mas em tudo isso Ele não dispensa a nossa humanidade; pelo contrário, quis o Seu Coração Divino continuar no nosso coração humano, agindo pela salvação e santificação de Sua Igreja.
Eu me faço a seguinte pergunta: o sacramento é valido, mas é eficaz? Será que eu estou dando mais de mim e de minhas palavras do que do próprio Cristo?
O brilho do sacramento “depende” de sua santidade sacerdotal. O sacerdócio é de Cristo e não nosso. Que tudo o que eu fizer para salvar o povo não me condene. Ser padre é estar com a sua alma em constante perigo. Somos chamados a viver essa união entre Deus e o humano, como Cristo, a ser sacerdotes-pontes: filhos de Deus e irmãos dos homens, a experimentar essa constante “tensão espiritual” entre a miséria de nossa realidade e a grandeza de nossa vocação e eleição. Nós estamos num processo de santificação, em constante processo de “tensão espiritual”. Seremos uma corda tencionada entre a grandeza daquilo a que somos chamados e a miséria daquilo que somos, e isso sempre desperta a nossa consciência. Nosso modelo é o coração sacerdotal de Jesus: “manso e humilde”. Veja o que li, nesses dias, no retiro dos padres Canção Nova do Cardeal Albert Vanhoye, S.J..
“[…] A Carta aos Hebreus nos ajuda a perceber que as duas qualidades do Coração de Jesus, ‘manso e humilde’ (cf. Mt 11,29), correspondem às duas dimensões da mediação sacerdotal entre Deus e nós. O coração ‘manso e humilde’ de Jesus é um coração sacerdotal, o coração de nosso sumo-sacerdote, ‘mediador de uma nova aliança’ (cf. Hb 9,15), estabelecida nos corações (cf. Hb 8,10; Jr. 31,33). As duas qualidades que o caracterizam correspondem às duas relações, com os homens e com Deus, necessárias para a mediação sacerdotal” (CONGRESSO TEOLÓGICO-PASTORAL ROMA 2007; “O Coração sacerdotal de Cristo une-nos a Deus”).
O sacerdote é alguém que se entregou, como Cristo, para a salvação do seu povo. Nós temos que viver sacramentalmente, ou seja, aquilo a que o povo é chamado a viver pelo batismo: a entrega. Nós somos o Coração de Cristo à disposição de todos. O coração do padre precisa estar ligado ao de Jesus para ser esse sinal, precisa ser amigo de Deus para saber ser amigo dos homens.
Trechos do Artigo do Pe. Luizinho da Canção Nova

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