domingo, 21 de julho de 2019

Artigos

Dom Milton comenta tragédia de Brumadinho 

“Se não vos arrependerdes, porém, perecereis todos do mesmo modo” (Lc 13,5).

Queridos (as) irmãos e irmãs,
O episódio do rompimento da barragem de rejeitos da Vale do Rio Doce, em Brumadinho/MG, reportou-me ao que São Lucas relata no seu evangelho quando se refere aos galileus que foram assassinados por Pilatos, e pelos que foram soterrados quando a torre de Siloé caiu sobre eles. A questão colocada para Jesus era se eles eram culpados ou não por destino tão trágico. E Jesus diante de ambos os fatos responde dizendo: “Se não vos arrependerdes, porém, perecereis todos do mesmo modo” (Lc 13,3.5).
A medida em que o tempo passa fica evidente que a tragédia de Brumadinho é criminosa. Ela ocorre por causa do descaso das autoridades, a negligência da mineradora, a omissão do poder público e, sobretudo, à corrupção que age como a lama assassina que invade governos e instituições fazendo-nos escravos da idolatria do lucro, da vantagem e do enriquecimento à toda custa.
O rompimento da barragem de Brumadinho tornou-se para nós brasileiros algo semelhante às torres gêmeas em Nova York, em 2001. Aquele atentado criminoso colocou à vista do mundo todo a força que o terrorismo tem no nosso mundo, que age sem escrúpulo nenhum em dizimar vidas inocentes. A catástrofe criminosa de Brumadinho torna evidente para nós que a fome e sede famigeradas de lucro também não teve escrúpulo nenhum em destruir vidas humanas e a biodiversidade de centenas de espécies que sobreviviam na região do rio Paraopeba.
O que pode haver de mais doloroso do que as centenas de mortos, a destruição da fauna e da flora, a contaminação de rios, o abandono das populações ribeirinhas que precisam da água do rio e do solo para sobreviverem? Penso que mais doloroso do que as consequências nefastas deste episódio será a nossa omissão, a intenção de continuar na normalidade de nossa vida como se tudo isso não tivesse que a ver conosco.
“Se não vos arrependerdes, porém, perecereis todos do mesmo modo”. Essas são as palavras que Jesus dirige também a nós se continuamos a manter no poder deste país políticos que querem enriquecer-se a qualquer custo, se não cuidamos do nosso planeta com responsabilidade, se desprezamos os pobres e não respeitamos a dignidade de toda pessoa humana. Jesus diz: “perecereis todos do mesmo modo”.
Há aqueles que dizem que conversão se limita ao comportamento individual, e nada tem a ver com o mundo em que estamos. Para estes, todo discurso que preconiza a justiça e o direito soa como “ideologia”. Muitos destes acreditam viver num nível superior ao que vivem os mais frágeis, os mais carentes e necessitados. Jesus a eles diz: “se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo”.
O que pode ser mais doloroso do que a morte? Unicamente a omissão! Omitir-se para não se arriscar, para não sair da “zona de conforto”. Longe de nós, omitir-nos! A omissão pode ser mais grave dos erros que podemos cometer; mais grave do bem que deixamos de fazer. A omissão nunca é neutra. Ela é sempre má.
Comecemos por agir onde estamos para mudar o mundo onde vivemos. É assim que transformamos a realidade: a partir do nosso lugar, da realidade que nos cerca. Podemos começar tentando acompanhar os mandatos políticos para que, quando se tratar de escolher nossos representantes, não cometermos o erro de eleger gente inescrupulosa. Ou então, comecemos por participar dos espaços onde as políticas públicas são elaboradas, para que as nossas reais necessidades sejam consideradas e atendidas.
Vamos despertar nas novas gerações ao cuidado com o meio ambiente. Nosso planeta sofre à exaustão. O uso indiscriminado de agrotóxicos certamente está relacionado com o crescimento dos casos de câncer e à destruição da mata ciliar que circunda os rios e riachos; e ainda, a destruição do cerrado explica o porquê do calor intenso que tende aumentar a cada ano.
“Se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo”! Oxalá possamos converter-nos diante da Palavra do Senhor! Se soubermos cuidar do mundo em que habitamos e fizermos prevalecer o bem de todos sobre de alguns apenas, nosso destino não será o da lama que sugou a vida de tantos irmãos e irmãs nossos, mas será a paz para todos, paz que só é possível quando somos capazes de conviver como irmãos.

Dom Milton
Kenan Júnior
Bispo de Barretos

Compartilhe: